Executivos da Siemens pedem investigação de vazamento de depoimentos

globo-paisRepresentação foi protocolada no MPF dia 11 de dezembro. Reportagem de O Estado de S.Paulo diz que advogado mandou executivo da Siemens destruir documentos de conta em Luxemburgo

Cleide Carvalho
Publicado: 3/01/14 – 19h27

SÃO PAULO – O escritório Urquiza, Pimentel e Fonti Advogados entrou com representação no Ministério Público Federal para que sejam investigados os vazamentos de depoimentos dos executivos da Siemens que assinaram acordo de delação premiada para colaborar com a Polícia Federal na investigação sobre pagamentos de propinas a políticos e funcionários públicos no Brasil. A representação foi protocolada no último dia 11 de dezembro e os advogados argumentam que os executivos têm sido expostos, contrariando a lei de delação premiada, que prevê o sigilo das informações e a punição para quem descumpre, com pagamento de multa e pena de um a três anos de reclusão. O vazamento de informações pode ser investigado tanto pela Corregedoria do Ministério Público Federal quanto pela Corregedoria da Polícia Federal, responsável pelo inquérito encaminhado ao Superior Tribunal Federal.

Nesta sexta-feira, o jornal “O Estado de S.Paulo” informou que o Sérgio de Bona, gerente do departamento financeiro da Siemens, afirmou em depoimento à Polícia Federal que chegou a receber ordens do advogado Roberto Justo para destruir documentos da conta secreta aberta por executivos da Siemens brasileira no Banco Itaú de Luxemburgo. De Bona era um dos executivos com autorização para movimentar a conta entre 2004 e 2011, ao lado do ex-presidente da Siemens do Brasil Adilson Antonio Primo, de José Manuel Romero Illana e Raul Melo de Freitas.

Segundo depoimento de Mark Gouch, diretor de investigação em compliance da matriz alemã, Primo determinou a abertura da conta e contou com o auxílio de três pessoas: Lunardelli, gerente de controladoria da Siemens do Brasil, Carlos de Vasconcelos, funcionário do Banco Itau em Luxemburgo, que operacionalizava as transferências, e o advogado Roberto Justo, do escritório Choaib, Paiva e Justo, que organizou a abertura das contas no exterior e da empresa Singel Canal Services, que tinha como beneficiários os executivos da Siemens brasileira com poder para efetuar as transações financeiras.

Gouch disse ainda à PF que Bona e Romero Illana eram obrigados a operacionalizar as transferências para a conta de Luxemburgo e discordavam da situação, mas não tinham opção, pois as ordens eram dadas por seus superiores, sem qualquer assinatura. Ambos sabiam que era irregular e, por isso, Romero montou uma estratégia para conseguir uma rubrica de Newton Duarte, da área de energia da Siemens, e Primo numa transferência de US$ 30 mil feita a Marcos A.B.Honaiser, na conta do UBS Bank, além da assinatura de José de Matos Junior (gerente de auditoria da Siemens do Brasil) e de Raul Melo de Freitas. Honaiser foi funcionário da Marinha e membro do Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Lunardelli e Matos Junior respondiam a Jurgen Brunowsky, o diretor financeiro (CFO) da Siemens do Brasil. Os três foram donos da conta de Luxemburgo durante o primeiro ano de abertura (2003), antes de serem substituídos por Primo, Bona, Romero Illana e Freitas.

Bona teria sido orientado pelo advogado Roberto Justo a “coletar assinaturas e entregar os documentos sempre pessoalmente ao advogado, que destruísse todo e qualquer documento gerado em relação à conta, e que não deveria contar a existência da conta nem para a sua mulher” durante reunião na qual participaram também Lunardelli e Romero Illana.

Segundo investigação da própria Siemens,dinheiro da conta aberta pelos executivos da Siemens no Itaú Luxemburgo foram usados em depósitos na conta das empresas Limanda e Neisse, com sede no Panamá e criadas por advogados, além de Honaiser.

Adilson Primo foi demitido do cargo em 2011 por justa causa. A Siemens afirma que ele desviou US$ 7 milhões da empresa. Primo afirma que a matriz sabia da existência da conta. Gough disse que há suspeitas de que a conta era usada para pagar propina para funcionários públicos no Brasil.

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